Love & Gelato

By Jenna Evans Welch

Amor, Gelato e a Dor da Adaptação: quando o filme não honra o livro

Resenha por: Carol Faria

Não conseguiria falar de Amor & Gelato sem falar do Gustavo, amigo de longa data e cofundador, comigo, do nosso pequeno clube do livro. Gustavo trabalha com público, fala tanto inglês quanto português, mas é muito tímido — certa vez me disse que não conseguia ler em voz alta por vergonha e falta de confiança.

Pensando que já estive no lugar dele e tive que me virar sozinha, propus que ele lesse pra mim, e eu o ajudaria no que fosse possível, com base na minha própria (ainda que modesta) experiência. Assim nasceu o clube do livro EASNM – Eu Amo Ser um Nojo de Mentira. O nome, aliás, é história pra outro dia.

Começamos com Amor & Gelato, seguindo a ordem dos livros da autora. E que surpresa boa! O livro me prendeu de uma forma como há muito tempo não acontecia. Lina é uma protagonista completa — mesmo com suas imperfeições, ela captura o leitor por inteiro. Eu passava por um momento pessoal bastante conturbado durante a leitura, e Lina acabou sendo um bálsamo e um talismã para os dias mais delicados.

O jeito como ela narra me lembrava muito o meu próprio, o que criou uma conexão imediata. Cheguei até a pensar que a autora havia lido minhas anotações: o nome real da protagonista é Carolina (!), e os pequenos detalhes sobre ela pareciam saídos da minha própria história.

O livro ficou com um lugar muito especial no meu coração. O livro. Porque o filme…

A decepção da adaptação

Tudo bem, eu sei que adaptações trazem mudanças. Mas nada me preparou para a transformação radical no arco dos personagens, no cenário (tirar Florença da história deveria ser crime) e na inserção de personagens que sequer existem na história original.

O resultado? Envolvimentos rasos, acontecimentos atropelados, e um enredo que parece saltar de cena em cena sem qualquer coesão. A protagonista é reduzida ao estereótipo da "nerd esquisita", o que beira o cômico — e não de um jeito positivo. Considerando que ela acabou de perder a mãe para um câncer agressivo, o tom leve e superficial do filme soa totalmente deslocado.

Hadley e Howard, os pais da Lina, cuja relação tem tanto peso no livro, mal aparecem juntos no filme. E Lina não mora no cemitério, nem Howard é seu administrador — mais um "crime" da adaptação. Addie, que no livro é divertida e presente, vira uma caricatura da “amiga descolada” sem função narrativa alguma. Ale, personagem inventado, parece criado apenas para antagonizar Ren (que no livro é o par perfeito da Lina), mas nem isso é bem desenvolvido.

Ren — ou Lorenzo — é o parceiro ideal: companheiro de aventuras, guia de Florença, ponte entre Lina e a história de sua mãe. A relação deles é um clichê delicioso no melhor sentido. Mas no filme? Depois de assistir duas vezes, ainda não entendi quem é Ren nem o que ele representa.

E o gelato?

O nome é Amor & Gelato, certo? No livro, o gelato tem presença simbólica: Lina prova Stracciatella (seu favorito e o de sua mãe) — abrindo um parênteses apenas pra dizer que também é o meu sabor favorito mas que aqui no Brasil é chamado de ‘Flocos’ — com Howard, e depois vive outras experiências marcantes com Ren em várias gelaterias. Ela descreve os sabores e momentos com tanto encanto que dá vontade de comprar uma passagem pra Itália só por isso.

No filme? O gelato aparece em três cenas, totalizando 5 minutos e 56 segundos (sim, eu contei).

O saldo final

Apesar da atuação neutra dos personagens e da direção questionável, preciso admitir: a cena final entre Lina e Howard é bonitinha. Mas, levando em conta que a relação entre os dois não foi construída ao longo do filme, mesmo essa cena perde muito da força que poderia ter, principalmente considerando o desenvolvimento e as descobertas na relação “pai e filha” que ocorrem tão lindamente no livro.